Durante muitas madrugadas eu costumava ligar o computador para assistir aos jogos do meu time de NBA, o Phoenix Suns. Eu ainda não tinha assinado o League Pass da NBA para poder ter acesso às partidas ao vivo em HD, com isso, restavam-me apenas transmissões precárias de sites ao redor do mundo.

Entre uma interrupção e outra, estava lá um jogador branco, com cabelo liso e menos de cinco centímetros a mais do que eu. Dificilmente eu poderia ter sido um jogador de basquete, pois as minhas únicas vantagens era ser mais rápido do que a maioria e ter um bom arremesso de três. A minha dificuldade estava na preguiça, eu não tinha a menor vontade de ser atleta.

Mas Nash esfregava na minha cara e na de todos os outros como a dedicação recompensa. Uma de suas frases favoritas é "se todo mundo [na NBA] se esforçasse como eu, [eu] não teria emprego". É quase unanimidade na Liga o reconhecimento ao seu entusiasmo pelos treinamentos e por aprimorar todos os seus aspectos do jogo. Tudo isso com uma lesão nas costas que o obrigava a tratamentos diários e que fariam a maioria das pessoas simplesmente desistir. Mas ele não apenas continuou em frente, teve o seu auge após os 30 anos (idade que a maioria dos armadores começa a declinar), comandou os ataques mais eficientes da NBA por nove seguintes e ainda foi o MVP (jogador mais valioso) por duas vezes.

Só que os feitos de Nash foram ainda mais fantásticos que os números possam provar. O armador canadense mudou o basquete americano. A partir de sua volta ao Suns em 2004, Nash e o treinador Mike D'Antoni promoveram uma revolução na NBA que fez com a maioria das equipes mudassem o seu estilo. Com a filosofia de arremessar antes dos sete segundos de posse de bola, pois é o período no qual as defesas ainda não se posicionaram (chamada de "seven seconds or less"), fizeram a NBA entrar depois em um período de armadores velozes, mais arremessos de três e jogadores abertos nas pontas. Aquele Phoenix Suns mudou a NBA para um esporte mais divertido.

Porém, tudo isso já foi falado e mostrado em vídeo, inclusive a vergonha das semifinais de 2007 contra o Spurs, naquele que foi considerado uma das arbitragens mais vergonhosas da NBA e que nos custou a classificação, com o juiz sendo preso posteriormente em um escândalo de apostas. Só que isso tudo é menor diante do que Nash realmente proporcionou, dentro e fora de quadra.

A admiração pelo armador, seja através dos jogadores ou imprensa, também se dá pela simpatia, honestidade e respeito ao adversário. Nash era o rei do "High5", o cumprimento que os americanos fazem ao baterem a palma da mão contra a palma de outra pessoa. Há tantas piadas sobre isso, mas era inegável a sua vontade de incluir a todos na equipe, de nunca deixar o ânimo cair, de ser aquele que puxa todos para cima.



Isso, claro, é admirável, mas Nash ainda, ao menos para mim, foi uma influência ainda maior. Parte principal do trabalho de um armador é antever as jogadas, procurar entender os desdobramentos de cada ação. Por que, em diversas jogadas, ele parecia saber onde cada um dos seus companheiros estaria e, assim, conseguia extrair o melhor de cada um. Nash tornou melhores jogadores que nunca mais tiveram exibições próximas àquelas sob seu comando.

Assim, para mim, provavelmente sem saber, eu ia absorvendo. Talvez, ao acompanhar as muitas entrevistas e vídeos com ele, eu deva ter aprendido algo. Lá por volta de 2010, um ano importantíssimo para mim, não em um momento único, mas em um processo, você se dá conta do quanto o longo prazo é importante. Que pensar nos outros, nas suas ações, de ser persistente e em sempre planejar são atitudes essenciais para ser bem sucedido, seja lá o que isso signifique para você. É necessário olhar em volta, ver algo mais, as consequências dos atos, não apenas abaixar a cabeça e seguir em frente. Nós não estamos sozinhos.

Tudo isso, mesmo com todas as dores e adversidades, com um sorriso e com a satisfação de quem estava vivendo anos incríveis. Ontem, ao se despedir, Nash escreveu que os anos com o Suns foram os melhores de sua vida.

Não posso dizer que tenham sido os da minha, mas foram anos incríveis.

Obrigado, Nash.

OBS: Mais sobre a vergonhosa série de 2007 contra o Spurs aqui e aqui