Antes de começar, um lembrete: Dilma usou a cadeia pública de rádio e TV na terça para fazer o discurso que deveria ter feito ontem no estádio. A presidente fez uso de um expediente que deveria ser informativo para fazer política e apontar o dedo para aqueles que, segundo ela, "torciam contra" - a velha prática de criar os inimigos da nação. Não foi sem razão que ela citou os seus torturadores na ditadura no discurso de hoje.

Posto isso, após as inúmeras vaias e xingamentos direcionados à presidente, surgiu a reação em manada. "Coxinhas", "elite" e outras palavras que procuravam rotular e, com isso, desqualificar quem ousou expressar a sua revolta no Itaqueirão. Nessa dicotomia (deles), os corneteiros foram o que são os Black Blocs para a parte civilizada da sociedade: vândalos.

Mas, claro, vamos ao cerne das críticas e elas explicam muito a nossa sociedade.

A tática Black Bloc deixou um rastro de destruição de propriedade privada e pública, além de ter afastado a classe média das ruas graças à violência das suas ações - e por isto foram repudiados: pelo que fizeram, não pelo que eram.

Já o público de ontem, não. As críticas que li destacavam a condição social ou econômica dos que se manifestaram - e, assim, limitavam a análise a este fato. E, claro, por serem "ricos", "coxinhas", "playboys" e etc, não poderiam se manifestar.

E, claro, o ridículo que é condenar uma multidão por uma atitude como essa. Os gritos em um estádio são manifestações espontâneas, mesmo que, digamos, cem pessoas tenham combinado antes de puxarem gritos. Se não houver uma pré-disposição do público, esses cem ficarão sozinhos. E ontem foi o estádio todo que se manifestou.

Aliás, isso não foi a primeira vez que ocorreu. E não será a última.

O brasileiro está cansado de ser roubado e enganado. As notícias de corrupção e incompetência assolam o noticiário. As obras da Copa do Mundo, que deveriam levar melhorias para a população, mesmo tendo rasgado a Lei de Licitações, não decolaram. Uma hora o povo cansa, ainda mais que não é o sempre que você está no mesmo ambiente que a presidente.

E o fascismo? Boa pergunta.