O assunto deste final de carnaval é um só: a confusão na apuração das Escolas de Samba de São Paulo. As imagens de um integrante da Império da Casa Verde invadindo a área protegida, pegando os envelopes com as notas e os rasgando em seguida, certamente ganharão o mundo. Porém, a baderna provocada pelos componentes da Gaviões da Fiel foi muito pior.

É difícil entender os motivos da revolta de ambos. A Casa Verde parecia estar livre do rebaixamento, já que faltavam apenas duas notas e ela estava com 159 pontos, 0,9 à frente da primeira rebaixada, a Pérola Negra. 

Já a raiva da Gaviões da Fiel teve início no sétimo quesito, Evolução, quando a jurada Mary Dana deu 8,9 à escola. Entretanto, o regulamento descarta a menor nota, o que deu à agremiação 19,6 no total por Evolução (9,9 e 9,7). Os corintianos terminaram empatados na 7ª colocação com outras duas escolas.


Em entrevista ao G1, o presidente da Gaviões da Fiel, Donizete, diz que "ficou com um pé atrás" com a mudança de um jurado por um suplente e o presidente da Vai-Vai, Neguitão, informou que "a gente estava sentindo um cheiro de clorofila no ar", se referendo a uma suposta ajuda à escola Mancha Verde, da torcida do Palmeiras. 


Sendo assim, há motivo para tanta revolta? Não digo por parte do presidente, mas pelos integrantes da torcida que iniciaram uma confusão do lado de fora, com cenas lamentáveis onde eles derrubavam pesados blocos de cimento que serviam para desviar o trânsito, bem como as tentativas frustradas de derrubar a grade que protegia alguns carros alegóricos. Além disso, jogaram tudo o que puderam por cima das grades. Por fim, um dos carros apareceu pegando fogo, embora não se possa afirmar quem tenha sido o responsável.

Com isso, surge outra pergunta: o que leva uma pessoa a ter esse comportamento?

A imagem de dezenas de pessoas pulando dando pontapés na grade é de assustar. O comportamento é típico de uma manada, que só floresce nas pessoas quando estão em um grupo, como bem resumiu o Prêmio Nobel de Economia de 1974, Hayek ("O Caminho da Servidão", IL, 1990):

"(...) o desejo de identificação do indivíduo com um grupo resulta com frequência de um sentimento de inferioridade, e por isso tal desejo só será satisfeito se a qualidade de membro do grupo lhe conferir alguma superioridade sobre os que a este não pertencem. Às vezes, ao que tudo indica, o próprio fato de esses instintos violentos que o indivíduo é obrigado a refrear no seio do grupo poderem ser liberados numa ação coletiva contra os estranhos constitui mais um incentivo para fusão de sua personalidade com a do grupo."

Embora não se referisse a integrantes de organizadas, mas, sim, de pessoas em partidos totalitários, o raciocínio é o mesmo. Não há mais diferença entre a personalidade do torcedor e da escola. Assim, quando a escola é supostamente "roubada", ele o foi também. Com isso, impediram a sua escola de vencer e, logicamente, ele, o torcedor, de ter sucesso em alguma coisa, talvez, a única em que possa ter sucesso na vida. E como o grupo lhe confere um sentimento de superioridade, talvez até de impunidade, é necessário agir. O que também é explicado por Hayek:

"Agir no interesse de um grupo parece libertar os homens de muitas restrições morais que regem seu comportamento como indivíduos dentro do grupo".

Ora, se as amarras morais estão libertadas - e podemos considerar que, no caso de um grupamento organizado de futebol, elas já não são muitas - e se o grupo foi impedido de atingir o seu objetivo; é necessário, então, na visão do grupo, tentar impedir o rumo dos acontecimentos, mostrar a sua revolta, chamar a atenção.

E só isso pode explicar a cena triste e quase infantil de dezenas de homens pulando e atirando os seus pés em direção à grade.

Por sorte, não houve rivais e a polícia impediu o confronto com a Mancha Verde. Pois, decerto, o caos poderia ser muito maior.

É, todo carnaval tem o seu fim. Alguns felizes, outros não.

Fotos: UOL / MeuTimão / Terra