Alguém lembra desta nota?

Estou lendo o excelente livro da Míriam Leitão (colunista do Globo) "Saga Brasileira - a longa luta de um povo por sua moeda". Ele relata os planos econômicos mirabolantes que o Brasil passou nas últimas décadas para, enfim, conseguirmos nos estabilizar com o Plano Real. São muitas histórias que deveriam ser engraçadas, mas, que, quando você para para refletir, tornam-se tristes - como a total incapacidade gerencial do Sarney, por exemplo.

Porém, ainda no Sarney, mais exatamente na parte sobre a implementação do Plano Cruzado, há um parágrafo que mostra o quão louca foi aquela época:

"O Cruzado foi intenso enquanto durou. Os arquivos da imprensa têm as marcas daquele tempo de alegre loucura. No dia 3 de março [nota: o plano começou no dia 28 de fevereiro de 1986], o Jornal do Brasil trazia a notícia realmente inesperada: "Casal seminu aparece na Sunab [Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços] e denuncia motel por aumento." Tinha sido uma das 1200 denúncias que a Sunab recebera em dois dias de plano. Em tempo: o motel foi multado."

Controle de preços, inflação galopante, o populismo ao usar a população como fiscal de preços. Tudo isso pode parecer distante hoje, em 2012. Mas essa era a tônica do Brasil até o início da década de 90, quando, enfim, o Plano Real deu fim à hiperinflação.

Entretanto, a história e dezenas de livros nos mostram que o pai e mãe da inflação são um só: o governo. Ao aumentar os gastos em quantidade maior do que a arrecadação, o governo é obrigado a cobrir esse déficit seja através de impostos ou jogando novo dinheiro na economia. O primeiro diminui o consumo, o que não é bom para o governo. O último é bom para quase todo mundo, só que apenas no curto prazo.

Com mais dinheiro circulando, ele passa a valer menos - é a lógica de mercado - e os preços sobem até atingir o ponto de equilíbrio. Como há menos dinheiro, ele fica mais "caro", o que faz [ou deveria fazer, em situações normais] os juros subirem. Com isso, muitas empresas que precisam de empréstimos, podem vir a ter dificuldades para obtê-los ou renová-los. Além de, claro, com os preços em alta, o consumo diminui.

Esse não é um bom cenário para o governo, que, para não entrar imediatamente em uma recessão, reinicia o ciclo e continua a estimular o consumo, seja através de redução de impostos ou injeções de dinheiro.

Por fim, chega uma hora em que não é mais possível continuar a manter os juros baixos enquanto os preços sobem. Isso é populismo monetário, resta saber se consciente ou não.

Os tempos são outros, não precisamos de tabelas e nem de calculadoras, mas a setinha de preços no gráfico não para de subir.

OBS: Fui injusto e não citei que o livro foi presente da minha querida Caroline Guimarães. Falha minha!

Para entender melhor: "O que esperar da economia brasileira" por Leandro Roque no Instituto Mises Brasil.