À medida que a primeira primária do Partido Republicano se aproximava, os meios de comunicação brasileira começavam a dar mais importância ao que um senhor de 76 anos, dono de um discurso bem diferente dos seus correligionários, dizia para a sua multidão crescente de apoiadores. A maioria de jovens completamente céticos em relação à Política. Quer dizer, até conhecerem Ron Paul.

Ron Paul, congressista pelo Texas (uma espécie de deputado federal) e médico, resolveu entrar para a política quando o então presidente Nixon acabou com o padrão-ouro na década em 1973. Sendo assim, Paul largou o jaleco e subiu no palanque para defender o dólar dos ataques do governo e do Banco Central e lutar pela causa da Liberdade.

Com o seu discurso, ele atraiu uma sólida legião de seguidores por todo o país. Porém, em nenhum momento nada chegou a ser parecido com o apoio que ele tem hoje. Em todo o país, há comitês da sua candidatura, o número de doadores só cresce e a organização da campanha é extremamente profissional, lição aprendida a duras penas nas eleições anteriores quando ele também tentou as primárias pelo Partido Republicano, perdeu e se candidatou pelo Partido Libertário - o que é permitido nos EUA.

Porém, aqui no Brasil, até compreensivelmente, Ron Paul é um completo desconhecido. Com o crescimento da sua popularidade (ficou em 3º na primária de Iowa, com 3% a menos que os líderes Rommey e Santorum), o deputado começa a ganhar espaço aqui na imprensa brasileira. O problema é o que colocam nesses espaços.

No dia 30 de dezembro de 2011, foi a vez do Portal Terra com "Pré-candidato Ron Paul pode perder por ideias radicais". No texto, algumas informações desencontradas como a que o Tea Party "o elegeu [Ron Paul] no final de fevereiro, em uma convenção realizada em Phoenix (Arizona), como favorito para a corrida pela Casa Branca.". Pela organização completamente descentralizada e pela ascendência ainda maior da Michele Bachmman sobre o movimento, fica difícil entender.

Mas o ponto em questão não é esse. O título informa que Ron Paul poderia perder pelas ideias radicais. Ora, se o que está em jogo é a nomeação pelo partido Republicano, então, as propostas devem ser analisadas sobre a perspectiva do partido. Com isso, as ideias sobre as fronteiras e imigrantes estariam dentro do prisma conservador, base do partido. Sobrariam, então, as ideias sobre a Economia e Política Externa que são as causas de maiores atritos entre Paul e os demais candidatos. Faltou, então, dizer quais eram (e por quais razões) as tais "ideias radicais".

"Não roube, o governo odeia competição"

Já no dia 3 de janeiro, a repórter da Globo, Elaine Bastlevou ao ar no Jornal nacional uma excelente matéria sobre as primárias e oscandidatos. No texto, ela chegou a usar a palavra libertário para descrevê-lo.

Com o resultado de Iowa, os jornais puderam fazer uma cobertura mais detalhada do que aconteceu e sobre quem são os candidatos. Na edição online, o Estadão deu mais destaque a Mitt Rommey e Rick Santorum, praticamente ignorando Ron Paul. Na Folha, o cenário se repetiu, com exceção do blog dos correspondentes "Pelo Mundo", onde Verena Fornetti, de Nova York, comentava que a venda de camisetas de Ron Paul foi maior que a de Obama na semana que antecedeu o Natal no site Cafe Press.

A exceção, ao menos na versão impressa, foi O Globo. O seu editorial "Disputa evidencia divisões republicanas" fez um bom apanhado dos candidatos, afirmou que Ron Paul "mostrou que não pode ser descartado. Ele é da ala libertária, não intervencionista e a favor da redução drástica do tamanho do governo. Slogans seus como guerra não, fim do banco central têm mais apelo entre o eleitorado jovem. Defende a legalização das drogas.".

Quem saiu do tom foi Demetrio Magnoli em sua coluna "Iowa: epígonos se despedem". A maior parte do poder de fogo de suas 895 palavras foi disparada contra Ron Paul. No primeiro parágrafo, há uma citação de Michel Medved sobre as primárias republicanas:

“[as primárias] se transformaram num bando selvagem, louco, do qual emanam noções excêntricas e irresponsáveis que os colocam à margem da corrente principal da política americana”.

Mais à frente, Magnoli informa que "Medved se referia especificamente a Ron Paul, um ponto fora da curva mesmo pelos padrões do Tea Party.".

Faltou Demetrio Magnoli informar quem é Michel Medved. Na descrição, ele é um analista conservador. Sim, ele também é. Só que ele é muito mais conhecido pelo seu programa de rádio que é transmitido para todo os EUA. Segue um trecho de um programa do dia 9 de setembro de 2011 onde Medved declara as suas preferências políticas:

"Vamos conversar com duas das pessoas responsáveis por aplicar as políticas que tiveram sucesso em manter os EUA longe das ameaças terroristas nos últimos 10 anos: Donald Rumsfeld, a quem eu admiro bastante e Dick Cheney, de quem sou amigo e admiro há mais de 30 anos."

Não é de se estranhar que alguém que admire Dick Cheney e Donald Rumsfeld, os dois maiores falcões da guerra do governo Bush, odeie Ron Paul.

Mais à frente, ainda sobre Paul, ele o define como "um libertário, no curioso sentido que o termo adquiriu nos EUA. Isolacionista radical, pacifista extremado, o texano atraiu um cortejo de adeptos antissemitas, arautos das conhecidas teorias conspiratórias sobre o 11 de setembro que fazem tanto sucesso entre esquerdistas e ultranacionalistas brasileiros.".

Demetrio Magnoli, que com tanta propriedade analisa a política brasileira, é raso na sua descrição do entendimento de Ron Paul sobre o 11 de setembro. Ao declarar que Ron Paul atraiu os fãs das teorias conspiratórias, os aproxima de quem acredita que foram os próprios EUA que atacaram as Torres Gêmeas - e essa visão é bem comum não apenas entre os quem enxergam uma grande manipulação mundial. O deputado texano sempre declarou que foram as políticas intervencionistas ao longo do século XX que provocaram a ira do povo muçulmano. Além de lembrar que foram os EUA que treinaram Osama Bin Laden.

Magnoli afirma também que "Paul não está tão distante dos demais pré-candidatos da direita republicana — isto é, todos eles, com a exceção parcial e qualificada de Mitt Romney.". Assim, ao praticamente ignorar Mitt Rommey, Demetrio Magnoli o preserva e o coloca acima dos demais. Curioso é que esse é exatamente esse o padrão da imprensa não conservadora não americana. Rommey seria o preferido por ser mais próximo ao centro. Quer dizer, de Obama.

A nota triste está por conta do jornalista Paulo Moreira Leite, colunista da Época. Em quatro colunas diretas sobre Ron Paul ("RonPaul quer o governo do mais forte", "A surrealista defesa de RonPaul", "Ron Paul e seus iludidos" e "Desfazendo mitos emtorno de Ron Paul"), o ex-diretor de redação da própria Época e do Diário de São Paulo, expõe todo o seu desconhecimento de Economia e, principalmente, sobre quem é Ron Paul. À parte os ataques ao capitalismo, há uma frase que merece ser destacada e que exemplifica toda a sua ignorância sobre as ideias de Ron Paul:

"Até aqui, temos o seguinte: o Estado não pode ter um banco para definir os juros, proteger o emprego e a moeda, como está inscrito no estatuto do Federal Reserve. Fazer isso é interferir na liberdade do mercado."

"O Fim do FED" livro do Ron Paul
 lançado no Brasil pelo Instituto Mises Brasil

Ora, Ron Paul acredita que justamente ao extinguir o Banco Central está sendo feita a defesa da moeda e, consequentemente, do emprego. São visões de mundo distintas, Paulo Moreira Leite. Recomendo ao colunista a leitura do texto da Reason Magazine "Ron Paul Reaches Out to the Youth of Occupy Wall Street

Enfim, agora que a campanha apenas começou, poderemos ver como a análise sobre Ron Paul e suas ideias serão feitas. A mediação dessa leitura será importante para entender o pensamento econômico brasileiro. Embora tenhamos que observar os conteúdos praticamente traduzidos das agências internacionais.
Em tempo, como ficou claro: eu apoio Ron Paul.