Stiff Little Fingers em São Paulo


Tenho dificuldades em aceitar músicas cujas letras não posso acreditar. Isto advém da minha concepção de arte onde o trabalho é a busca pelo artista de alguma dúvida que o aflige ou a sua resposta a alguma questão, não importando aqui qual ela seja.

Com essa ideia de arte, apaixonei-me desde cedo. Embora seja bom frisar que esse entendimento só veio depois, claro. A história é batida, aconteceu com muitos. Porém, a música com sentido de urgência, com letras que impossibilitavam a indiferença e melodias que traduziam o clima de desespero que Londres passava e que, se talvez não encontrasse eco no Brasil dos anos 90, certamente espelhava o meu mundo dos 14/15 anos.

OK, já se fazia música com letras similares na década de 60, talvez com menos profundidade que no Punk. Embora eu não possa criticá-los dado a diferença de épocas. Assim, o que torna o punk especial é a ideia de que, mesmo se o mundo ainda estiver acabando, viver é a melhor coisa que existe. E o viver está refletido nas letras, pois elas são o espelho das personalidades tão distintas que surgiram naquele período tão intenso.

A ideia de que o artista e a pessoa são um só sempre me atraiu, afastando a desculpa para eventuais desvios do artista, como costumamos ver por aí. Não gosto de ficção, prefiro a realidade e o Punk sempre foi sobre ser sincero.

E com essas letras de trilha sonora, cheguei até aqui, após 17 anos da primeira vez que ouvi "London Calling", do Clash. E falando neles, parti para São Paulo na semana passada para ver uma banda que, assim como eu, também mudou radicalmente após ouvir Joe Strummer e cia. Falo dos irlandeses do Stiff Little Fingers. Ironicamente, o show foi em um lugar chamado Clash Club.

Talvez não seja ironia, quem sabe, destino. O fato é que, durante a abertura do show com "Roots, Radicals, Rockers and Reggae", eu me peguei pensando no que me fazia viajar por 600km, com a expectativa de uma noite mal dormida e uma viagem de volta na madrugada com trabalho no dia seguinte.

A resposta veio rápida, com aquela que é, certamente, uma das minhas músicas preferidas: "At the Edge". Reparem: na primeira canção há um chamado a todos aqueles que estão fora do estilo de vida de música como algo que secundário.  Jake Burns, o vocalista, assim como muitos músicos de diferentes épocas, acreditava que a música poderia mudar o mundo. Talvez o sonho fosse exagerado, mas, como ele mesmo disse antes da maravilhosa "Tin Soldiers" (um hino contra a estupidez das forças armadas), se uma canção pudesse mudar uma pessoa, então, estava ótimo.

Talvez alguns possam pensar que, através de notas e palavras, cria-se um exército disposto a mudar o mundo. Longe disso. Certamente, a principal função de tais músicas era nos fazer acreditar que não estávamos (ou melhor, estamos) sozinhos no mundo. Quando ouvi (em "At the Edge"), lá na minha adolescência, que "são as provas [do colégio] que importam, não times de futebol" (note que aqui a letra fala na voz dos pais, por isso a "bronca"), você tem a certeza que há mais gente legal lá fora.

E sempre houve. Alguns mais legais que os outros, é verdade, e estes vão nos inspirando a continuar acreditando, não apenas naquelas letras, mas, principalmente, em você mesmo. O punk é, e sempre foi, sobre individualidade. Sobre dizer um não sobre a passividade, coletividade e a mediocridade. De deixar os padrões de lado e ser você mesmo. Um fim às convenções e, consequentemente, ao preconceito. É durante o Punk que, pela primeira vez na história moderna, mulheres andavam lado a lado dos homens, não como namoradas, mas, sim, como forças criadoras.

Enfim, desse período incrível surgiram músicas para acreditar. Em um mundo diferente, em você próprio. E, assim, dando força aos próximos. Burns, em determinado momento, parou e falou para a platéia:

"Existem pessoas que mudaram as suas vidas após lerem um livro, verem um filme. Eu mudei por uma banda. Ou melhor, por um homem. Nesse caso, a banda é o Clash e ele é Joe Strummer"

E emendou "Strummerville", uma bela homenagem cantada a plenos pulmões por um Clash Club lotado e emocionado. 

Joe Strummer dizia que o mundo é habitado por pessoas e é com elas que devemos nos importar. Com "Strummerville", Jake Burns nos lembrou de que ainda é possível crer em canções. 

Felizmente, sempre existirá música para acreditar.

"Doesn't Make it Alright em São Paulo, 11/08/2011"