A escolha é nossa


A notícia mais importante da última semana foi o debate sobre o aumento do teto da dívida americana. Democratas e republicanos travaram longos debates sobre quais ações deveriam ser tomadas para enfrentar uma das mais graves crises enfrentada pelos EUA.

Se por um lado boa parte dos democratas, capitaneados por Paul Krugman (economista e colunista do New York Times), acreditava que os cortes no orçamento não deveriam acontecer - ou ao menos não em relação a programas-chave da atual administração, como o Medicare -, Obama estava mais preocupado com a ideia de que esse debate não pudesse se repetir até 2013 (ele concorrerá à reeleição no final de 2012).

Assim, em todo o mundo, os jornais foram quase unânimes em afirmar que o Tea Party Movement foi o grande vencedor do confronto ao conseguir grandes cortes nos gastos do governo para os próximos 10 anos.

Com 26 deputados no Partido Republicano (de um total de 240 do partido. São 435 no Congresso), o Tea Party é visto por seus adversários como um grupo radical e ultraconservador. O que é o Tea Party, na verdade, é muito mais difícil de definir por tratar-se de um grupo com enorme capilaridade por todo os EUA e que não possui um líder formal. Assim, são travadas diversas batalhas por alguns pontos, embora possamos citar o corte de gastos por parte do governo como algo que une os seus integrantes.

Como exemplo de alguma dessas diferenças entre os líderes, reproduzo a fala do deputado Ron Paul no New York Times em 2010:

"Como muitos americanos que estão frustrados e que, por isso, ingressaram no Tea Party, nós não podemos ser contra o "big government" nos EUA enquanto o defendemos no exterior. Nós não podemos falar de responsabilidade fiscal enquanto gastamos trilhões em ocupações e ameaças pelo resto do mundo. (...). Nós não podemos defender poucos milhares de dólares em preservação da natureza ou uma construção de uma piscina em alguma cidade enquanto viramos as costas para um orçamento do Pentágono que é quase igual ao do todos os países do mundo combinados para o setor".

Com isso, ao definir o Tea Party como grande vencedor desse debate, o que todos querem dizer é que, enfim, venceram aqueles que queriam combater uma grande dívida com cortes de gastos, exatamente como todos nós fazemos. Míriam Leitão, colunista do Globo, ironizou a posição de Krugman e de seus seguidores no texto de hoje (02/08/2011):

"Economistas como Paul Krugman dizem que os EUA não deveriam cortar gastos. Como um país que tem 100% de dívida/PIB e 11% de déficit público pode não cortar gastos?"

Para ilustrar, Krugman escreveu na sua coluna no NY Times (reproduzida no Globo de hoje):

"A pior coisa que se pode fazer nessas circunstâncias [o que ele chamou de economia deprimida] é cortar os gastos do governo, pois isso aprofundaria a depressão".

Fechando o debate, Willian Anderson (economista e membro do Mises Institute) em artigo traduzido no Instituto Mises Brasil refuta as ideias de Krugman e explica que a economia terá que, obrigatoriamente, passar por um período de ajuste (depressão), e que as ações do governo podem piorar o quadro:

"Se há algum raciocínio encadeado que descreva corretamente a mentalidade keynesiana, tal raciocínio profundo seria este: gastar, gastar, gastar. Trata-se de uma tese obviamente simples, que certamente possui grande apelo junto a políticos, e até mesmo junto ao público geral, e que domina o pensamento econômico acadêmico desde a Segunda Guerra Mundial.  Como afirmou Krugman, as famílias não podem gastar aquilo que não têm, e as empresas, por não verem perspectivas quanto à demanda futura, não irão investir (leia-se: não irão gastar com investimentos em capital — algo que sempre é definido pelos keynesianos como sendo valioso unicamente porque representa gastos, e não por causa de qualquer aspecto relacionado à maior produtividade trazida por investimentos em capital).


Logo, o problema dos recursos ociosos não é apenas a falta de "demanda" ou de "gastos".  Tampouco é economicamente sensato dizer que o governo deve preencher a "baixa demanda".  O problema foi que, na esteira da farra do crédito fácil, houve uma má alocação de recursos em vários setores da economia, o que causou um desequilíbrio estrutural, um descompasso entre a estrutura do capital e a demanda do consumidor.


A depressão é o período no qual a economia passa a corrigir esse desequilíbrio.  E a única maneira de fazer corretamente esse procedimento é permitindo que os recursos sejam realocados de modo que correspondam às reais demandas do consumidor.  Para tal, a única medida correta é deixar o mercado, guiado pelo sistema de preços, realocar esses fatores da maneira mais racional possível.  Gastos do governo irão apenas retardar esse processo, intensificando a recessão."
Um dos blogs da revista inglesa Economist afirmou que "os EUA, desde 2007, têm feito estímulos monetários e fiscais na economia (...). Agora os EUA se juntaram ao clube da austeridade fiscal [restrição de gastos e sem aumento de impostos], a política monetária [quantidade de moeda na economia e taxa de juros] terá que fazer todo o resto". Como a taxa de juros deles é baixíssima e um aumento na quantidade moeda causará inflação, as previsões não são nada boas.

Assim, podemos, finalmente, estar chegando (ou melhor, voltando) à era na qual a ideia de que o governo como o propulsor da economia é ultrapassada. E que são as pessoas, com as suas iniciativas individuais, que movem a economia e que trazem prosperidade e riqueza para todos, não apenas aqueles escolhidos pelo governo através de lobby.

Um viva ao futuro!