Um carro de plano de saúde atrapalhando
 a visão do campo: alguém se importa?

Ontem o Botafogo jogou contra o Corinthians em São Januário. E, como sempre se repete em jogos do Botafogo, houve briga entre as duas principais organizadas. Eu estava no local na hora e vi fogos disparados contra as pessoas e muita correria, com crianças e mulheres no meio.

Eu fiquei atrás de um dos carros esperando acalmar um pouco, enquanto a maioria das pessoas se retirava na direção contrária ao conflito. Entretanto, eu tinha que passar pelo local da confusão para pegar o meu ingresso e entrar no estádio. Porém, uma das organizadas continuou com a provocação, mesmo após a outra ter se afastado.

Passei pelo canto da calçada, pulando um monte de lixo, tentando evitar aqueles que, sem camisa, não cansavam de cantar "músicas de guerra" para a "rival". Mais à frente, outro problema. Ao lado da fila e perto dos carros da PM e da Guarda Municipal, era o local principal da confusão e onde os policiais tinham gastado, com vontade, o gás de pimenta, formando uma espécie de nuvem.

Não sei se alguém já sentiu o gás (eu cheguei a ter um em casa), mas é uma das piores sensações que existe. Você mal consegue enxergar e os olhos e a garganta coçam demais. Depois, dá uma dor de cabeça e você ainda fica com o estômago embrulhado. E a Polícia não tem a menor cerimônia em usar contra quem quer que seja. Afinal, ela responde pelo que faz?

E isso tudo aconteceu ao lado da fila, onde havia dezenas de crianças, com os seus pais e algumas mães. Eu fico imaginando uma pessoa que tenha alguma responsabilidade: ela voltaria a algum jogo? Claro que não.

Na fila, outro caos. Eu não acho que a PM deva organizar filas, isso é responsabilidade do clube. Mas é simplesmente um absurdo o que, mais uma vez, essas organizadas fazem. Existiam duas filas, separadas apenas por grades, cada uma vindo de uma direção, mas apontando para a mesma entrada minúscula e que estava longe de ter a capacidade de receber a metade das pessoas que ali estavam.

A entrada do caótico estádio de São Januário

Pois bem, a fila simplesmente se estendia por centenas de pessoas e andava muito lentamente. Porém, quando estou perto da entrada, um grupo de mais de 20 pessoas de outra organizada passa pela lateral da fila e entra sem a menor cerimônia - afinal, eles são os donos do estádio.

A pobre da menina do "Posso Ajudar?" fica completamente perdida e até se afasta um pouco. Aliás, se eu pudesse, faria o mesmo. Porém, eu estava ali, no meio daquela fila, coçando os olhos e me perguntando o que havia me feito trocar o pay-per-view por aquele estádio e aquela gente que não tem a menor condição de receberem (e serem) público.

Lá dentro, só consigo encontrar uma relação com a vida e com o restante do Brasil para explicar o que acontece. Ao ler relatos e histórias de torcedores na Europa (principalmente na Inglaterra), era normal ver que o futebol era uma espécie de válvula de escape para as frustrações da vida.

No Brasil, ou melhor, dentro do estádio, é justamente o contrário que acontece. O futebol parece ser também uma válvula, mas no sentido de divertimento. Pois, não importa o que aconteça, aquele que vai ao estádio está lá para se divertir.

Claro que cada um tem a sua maneira de assistir e encarar uma partida de futebol. Porém, ainda na fila, após serem amassados, correrem, ficarem em pé por muito tempo e ainda serem trapaceados por uma organizada, as expressões de indignação são mínimas e extremamente curtas. O que existe é a vontade de se divertir - tudo o que vier é o preço a ser pago pelo entretenimento. Será que há alguma relação, então, com a vida?

Dentro do estádio, o padrão se repete. Chegou-se a um ponto que não pode haver nada que atrapalhe a harmonia. "A arquibancada é um lugar de alegria, de incentivo", devem pensar alguns torcedores. Por isso, a patrulha em cima daqueles que acreditam que o papel de um torcedor não é o aplauso incondicional, mas, sim, uma reação ao que é visto dentro de campo.

A paciência e o aplauso em relação aos mesmos erros dos mesmos jogadores é rapidamente transformada em raiva quando alguém interrompe o "clima favorável". Então, os xingamentos e a atitude policial voltam-se contra aquele que, insatisfeito com o rendimento do time, revolta-se contra um jogador.

Porém, para o torcedor do aplauso, isso é inadmissível. Quase sempre ele utiliza essas frases de ordem combinadas: "tem que apoiar", "se é para vaiar, fica em casa", "você não é torcedor". Assim, se estabelece outra relação entre quem é o torcedor de verdade. Ora, pensa o do aplauso: "se ele não é igual a mim, ele está contra mim, ele é o inimigo".

Exagero? Eu não acho mais. Entretanto só isso explica pessoas passarem o tempo todo olhando para trás no estádio procurando e apontando quem está vaiando. Ao enxergarem um "inimigo", as veias da testa saltam e as mãos procuram logo um semelhante para indicar o "criminoso".

Assim como o membro da organizada que passa uma parte do jogo de costas para o campo conversando com outros membros assuntos mais importantes, o aplaudinte vive em um mundo só seu. E nele, só é permitido semelhantes.

Resta saber onde ficarão aqueles que ainda acham que torcer é reagir.