Ontem comprei o "Soccernomics", livro escrito por um jornalista e um economista esportivo. O livro é claramente baseado no livro de sucesso, "Freakonomics". Mas o que eu tenho em mãos busca explicar alguns fatos do futebol através de números. Para eles, o futebol "pode ser explicado, até mesmo previsto, estudando dados - especialmente dados externos ao futebol.

O raciocínio é interessante e é difícil não concordar com os dois. Talvez, apenas pelo meu primeiro parágrafo, fique difícil passar uma ideia dos seus argumentos. Por isso, a partir da minha leitura irei fazendo um registro aqui, sempre tentando adaptá-lo para o Botafogo e para o futebol brasileiro.

Vamos, então, ao 1º capítulo.

Dirigindo com um painel de instrumentos

Na verdade, o 1º capítulo é uma introdução e o objetivo é apresentar o leitor aos dois autores, como eles se conheceram e dar uma noção do que ele encontrará pela frente.

Os dois se conheceram na Turquia em no "Congresso de Esporte e Ciência do Centenário do Fernerbahce". Algo que os clubes brasileiros nem sonham em realizar. Simon Kuper, o jornalista, e Stefan Szymanski, o economista, disseram: "à medida que a população do país aumentava e a economia crescia, a seleção nacional [turca] provavelmente se tornaria melhor.

Há uma parte sensacional, embora óbvia, nesse capítulo: "por muito tempo o futebol driblou o Iluminismo. Os clubes ainda são em sua maioria comandados por pessoas que fazem o que fazem porque sempre procederam da mesma forma."

Essa frase é a realidade na maioria dos clubes brasileiros. Pode parecer absurdo, mas o modo como os dirigentes conduzem os clubes permaneceu praticamente inalterado desde o início do profissionalismo nos anos 30 até o início deste século. Isso para não falar de clubes em que o modelo de gestão ainda é concentrado na figura do líder forte, que tudo sabe e que todos devem confiar.

Alguns clubes brasileiros tiveram alguns líderes carismáticos que utilizaram a sua própria imagem para romper com o passado e iniciar uma nova era. O principal exemplo disso é o ex-presidente Bebeto de Freitas no Botafogo. Que, após dar fim a um período de gestões nebulosas, teve uma Presidência tão traumática no ponto de vista emocional, que obrigou o clube a dar uma guinada em busca de uma direção mais sóbria e que delegasse mais o poder a dirigentes profissionais.

Outros exemplos podem vir com o Palmeiras, com o renomado economista Luiz Gonzaga Beluzzo e o Atlético/MG com o controverso Alexandre Kalil. Dificilmente os rumos dos dois serão diferentes dos do Botafogo, pois ambos provocam tanta polêmica fora de campo sem quaisquer resultados expressivos que naturalmente os sócios buscarão caminhos menos tortuosos.

O capítulo prossegue explicando os precursores nos estudos dos números no esporte. E aproveita para questionar as razões que levam o futebol ser tão avesso aos estudos de dados, ainda mais que torcedores e comentaristas adorem números. Segundo eles, "algumas pessoas podem não querer ver sua relação emocional com o futebol estragada por nossos cálculos racionais". Depois, defendem o uso [vitorioso] das estatísticas no basquete, baseball, futebol americano, críquete e dardos!

Porém, para mim, a informação mais importante do capítulo é a existência de um Milan Lab. Um laboratório que efetua pesquisas relacionadas à saúde dos jogadores. Eles possuem milhões de dados sobre os jogadores do Milan. Resultado: o Milan possui uma equipe consideravelmente velha, com o maior exemplo sendo o interminável Maldini. No final da temporada de 2007, que culminou com o título da Champions League, a maioria dos titulares tinha 31 anos.

Obviamente, como os autores informam, o Milan Lab não divulga as informações obtidas. Mas, há uma para degustação nesse capítulo. No segundo, há outra, o que me deixa com a impressão que encontrarei mais coisas e que não há tanto segredo assim. Embora essa seja a versão de um dos médicos para a criação do Milan Lab: "a equipe médica interna do AC Milan descobriu logo que apenas estudando o salto de um jogador poderia prever com 70% de precisão se ele corria risco de contusão. (...) nesse processo tropeçou no segredo da eterna juventude.

Será mesmo que, no Brasil, há um treinamento para salto? Lembro que, quando eu jogava basquete [no Botafogo, claro], o treinador sempre falava disso para mim, pois eu tinha a péssima mania de cair somente nas pontas dos pés quando pulava. Pelos poucos treinamentos que eu vi, nunca notei nada parecido. E muitas lesões, por exemplo, surgem de quedas. Mas esse é um assunto que está longe de ser a minha especialidade, portanto, deixo para as pessoas da área comentarem, apenas lanço a questão para debate.

O final do capítulo é uma declaração do diretor do Milan Lab, o belga Jean-Pierre Meerseman. Depois dela, fica até difícil comentar alguma coisa: "você pode dirigir um carro sem painel de instrumentos, sem qualquer informação, e isso é o que acontece no futebol. Há excelentes motoristas, excelentes carros, mas se você tiver um painel de instrumentos isso torna tudo um pouquinho mais fácil. Fico pensando em por que as pessoas não querem mais informação."

Como disseram os os autores: "nós queremos". E se você chegou até aqui, tenho certeza que está incluído nesse grupo. Até o próximo capítulo!

2 - Por que a Inglaterra perde e outros vencem.

Parte I - Os Clubes

3 - Como evitar erros bobos no mercado de transferências
4 - Por que os clubes de futebol não ganham (e não deveriam ganhar) dinheiro
5 - O futebol inglês discrimina os negros?
6 - As penalidades são uma injustiça cósmica ou apenas se você for Nicolas Anelka?
7 - Tamanhos de cidade e títulos no futebol
8 - Futebol x Futebol

Parte II - Os fãs

9 - O país que mais gosta de futebol
10 - Uma crítica ao modelo de torcida de Nick Hornby
11 - As pessoas saltam do alto de prédios quando seus times perdem?
12 - Por que sediar uma Copa do Mundo é bom para você

Parte III - Os Países

13 - Por que países pobres são pobres nos esportes
14 - O melhor país pequeno do futebol no mundo
15 - O futuro mapa do futebol mundial