“Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho."

Esse foi Carlos Drummond de Andrade quando da morte de Mané Garrincha em janeiro de 83. Talvez, para a torcida do Botafogo, Garrincha teve um papel semelhante. Imagine o desânimo dos mais velhos, queimando sob o forte sol de Marechal Hermes, ao verem, durante os anos 80, jogadores que nem de longe despertavam esperança de título?

Ora, era necessário ter algo para acreditar. E acreditávamos no passado projetando um futuro melhor. Quer dizer, desejávamos que o passado glorioso fosse o futuro. Que um Garrincha surgisse e nos salvasse. Gérson, o canhotinha de ouro, sempre fez questão de frisar: “Mané era único. Podem surgir mil Pelés. Jamais outro Garrincha.”

Sim, Gérson. Jamais. Apesar da insistência de narradores e comentaristas em comparar o nosso ponta com qualquer mané (com minúsculas, por favor) que pare com a bola em frente ao zagueiro, é necessário lembrar a esses senhores que falta a esses jogadores colocar uma Copa no Mundo no bolso. Falta a eles o carinho inteiro de um país que encontrava um representante.

E não é só isso. Falta a eles a criatividade e, certamente, o caráter do Mané. Sim, ele era travesso, adorava um bar, mas estava longe de ser um Macunaíma como muitos adoram afirmar. Garrincha, ao contrário, era uma pessoa de bom coração, que acreditava nos outros. Enfim, uma criança grande, que adorava jogar bola.

Sendo assim, o lar de Garrincha só poderia mesmo ser um clube fundado por garotos. Um clube romântico, cheio de superstições e manias. Embora certamente o nosso gênio devesse coçar a cabeça e rir de algumas delas.

Aqui, no Botafogo, Garrincha era mané, era simples, era ele mesmo. Não precisava dar ouvidos a táticas, números e esquemas. Sabia que sua função era infernizar a vida dos zagueiros, consagrar o artilheiro e garantir o bicho. Como ele mesmo disse a João Saldanha: “Seu João, deixa a gente jogar o que sabe. Eu aprendi a jogar futebol espontaneamente. Não sei receber instruções.”

Se Garrincha não respeitava as ordens dos treinadores, tampouco se importava com as travas altas que teimavam em deixar marcas na sua canela, e menos ainda com o espaço sempre reduzido que o marcador lhe concedia. Se o driblado da vez se importasse com a física, haveria de mudar de opinião ao perseguir o nosso camisa 7 quando este estivesse rumo ao gol.

Para Garrincha, o gol era um detalhe e, certamente, o drible era o momento mais importante do futebol. Sábio Mané. Só podendo fazer um gol por jogada, fazia questão de repetir e prolongar os dribles. Como em uma peça exibida infinitamente, Garrincha estava lá a exibir o mesmo espetáculo todos os domingos, mas sempre com diferentes coadjuvantes.

Mané era o público em campo com a sua alegria, que era, na verdade, a alegria do povo. E tanto era o (e do) povo, que o próprio público tratou de fazer parte do jogo e criou uma maneira de driblar com Garrincha: o olé.

Hoje, gritar olé para os jogadores que chutam a bola no seu campo de um lado para o outro é banalizar Garrincha. O olé, inventado em uma partida contra o River Plate, era dele e, consequentemente, do povo. Era para frente, sempre. Era longo, demorado, e enchia de expectativa a torcida, até que ela, angustiada se a jogada teria êxito, solta o "lé" final misturado a uma risada.

E essa era a alegria de Garrincha. E será essa a imagem que teremos dele para sempre. Sim, alguns podem, por um instante, em alguma jogada, lembrá-lo. Mas jamais copiá-lo. São 75 anos de Garrincha. 75 anos de alguém que trouxe a várzea para os campos de futebol.. De um jogo alegre, descontraído e, por vezes, inocente.

Não é parabéns que se diz, mas obrigado.

OBS: Texto originalmente publicado no Blog do MCR no dia 18 de setembro de 2008.


OBS2: O texto encontra-se também no meu livro "Botafogo - Muito Mais que um Clube" que pode ser encomendado através do e-mail contato@thiagopinheiro.com.br