“It's exams that count not football teams”
(Stiff Little Fingers – “At the Edge”)

Quando eu era mais novo, eu tinha dificuldades para ir aos jogos. Como meu pai sempre odiou futebol, eu dependia do meu tio para ver o Botafogo. Embora ele fosse (ainda é, claro) um fanático, eu ficava desesperado sempre que ouvia um "hoje não vai dar para eu ir não".

E assim os anos foram passando. 8, 9, 10, 11, 12... 13 anos. Com essa idade, fui pela primeira vez a um jogo sozinho, lá no Caio Martins. Confesso que não lembro contra quem foi, mas a julgar pelas datas, acredito que tenha sido contra o Entrerriense, no Carioca de 95.

Depois desse jogo, eu só contava os dias para os próximos. Iludi-me achando que, a partir daquele momento, eu poderia ir a qualquer um, mesmo sem o meu tio. Obviamente, as coisas não foram muito bem assim e eu demorei mais uns dois ou três anos para poder tomar o rumo do Maracanã sem companhia.

A partir daí, quase mais nada importava. Eu contava os dias para voltar a ver o Botafogo. Na noite anterior, aquela expectativa. Na manhã do jogo, a vontade era de acordar mais tarde para que eu tivesse que esperar menos para sair de casa.

Algumas vezes, como todo estudante, o dinheiro ficava curto e nem aquela busca incessante por toda a casa atrás das moedas de um real resolvia. Resultado: ouvido colado na Rádio Tamoio para ouvir o grande Garcia Jr.

O tempo passou, as namoradas iam e vinham, os amigos e colégios também. Depois, o primeiro emprego e a faculdade. Tudo isso passava, mas o meu ritual das quartas e do domingo continuava inalterado: ver o Botafogo.

E esses anos todos assistindo aos jogos me proporcionaram muitas amizades com gente que, como eu, estava lá quase sempre. Hoje, vários deles são amigos não apenas das arquibancadas, mas para o resto da vida.

Enfim, o Botafogo faz parte da minha vida. As vitórias, as derrotas, as risadas, as lágrimas, o cachorro-quente frio, a procissão da saída, as confusões nas ruas, as brigas nas bilheterias, as esperas intermináveis no Bellini, as voltas nos ônibus lotados, as esperas agoniadas pelo apito final, os xingamentos aos ambulantes que passam exatamente na hora do chute, os agradecimentos a esses mesmos ambulantes pela bebida naquele calor de 40º...

Eu poderia seguir aqui enumerando milhões de momentos que todos nós passamos ao longo de nossas vidas.
Eu também poderia lembrar que, muitas vezes, o time que vestia a nossa camisa estava longe de merecer tal honra.

Na verdade, eu poderia falar qualquer coisa. Mas eu seria incapaz de poder reproduzir a alegria que é sair de casa, encontrar com os amigos e ver o Botafogo.

Isso, meus amigos, é impossível.

Obrigado, Botafogo.

OBS: Texto originalmente publicado no Blog do MCR no dia 1º de abril de 2009.


OBS2: O texto encontra-se também no meu livro "Botafogo - Muito Mais que um Clube" que pode ser encomendado através do e-mail contato@thiagopinheiro.com.br


OBS3: Texto publicado aqui no blog no dia 18/09/2010 e repostado como homenagem ao Dia do Botafogo.