Nesse momento, há exatos três anos, eu largava tudo e corria para a Argentina para ver o Botafogo. O resultado, bem, vocês sabem. Seguem um pequeno resumo do que aconteceu:

Limitando o Espaço

27 de setembro de 2007, quinta-feira

12h15 - voo para Buenos Aires perdido

12h40 - no avião, alguém ocupava o meu lugar

18h - sem vagas no albergue e carona para o jogo perdida

19h45 - eu e meu amigo sem ingresso

20h - policiais não nos deixam comprar ingressos ou falar com alguém da diretoria

20h10 - consigo um ingresso  e entro

20h15 - Após muito subir e descer de escadas (falando com todo mundo), consigo outro ingresso

 INÍCIO DO JOGO

 20h20 - Polícia não me deixa descer para entregar o ingresso ao meu amigo

20h25 - paro para rir da situação

20h30 - sabe-se lá como, meu amigo consegue entrar SEM ingresso

20h35 - descubro que esqueci os óculos

20h45 - gol do Botafogo

Ao atingir as redes, o chute de Lúcio Flávio pareceu-me a prova definitiva de que havíamos, enfim, com todo o nosso esforço para chegar à Argentina, completado a nossa longa e penosa estrada de humilhações e sofrimento nesse ano de 2007.

Nas arquibancadas do Monumental, éramos cerca de 100. Destes, eu presumo que 70 vieram do Rio de Janeiro. Ao chegar e cumprimentar aqueles que eu conhecia, era possível detectar uma risada de cumplicidade de quem pediu licença ao limite da razão e concedeu mais espaço à emoção.

Talvez algo tenha ficado apertado.

Esse gol do Botafogo tratou de pôr fim ao medo e transformá-lo em orgulho. Como seria possível descrever a emoção de fazer o Monumental de Nuñez ter apenas como trilha sonora - doce ironia - a magnífica "Ninguém Cala"?

Sendo assim, ignorar tudo que aconteceu depois é a melhor maneira de retratar o vazio da torcida. Ora, há como descrever a desilusão de tantos que fizeram tanto para ver muito pouco?

Como, então, retratar algo que toda a imprensa argentina classificou de inimaginável?

Durante aquelas décadas sofridas do jejum, a torcida acostumou-se a olhar para o céu e perguntar "por quê?". Em 2007, é a mesma coisa. Só falta descobrir quem deve ser questionado.

OBS: Texto originalmente publicado no Blog do MCR no dia 28 de setembro de 2007.


OBS2: O texto encontra-se também no meu livro "Botafogo - Muito Mais que um Clube" que pode ser encomendado através do e-mail contato@thiagopinheiro.com.br