Publicado originalmente no Blog do Movimento Carlito Rocha em 1º de abril de 2010. A série foi interrompida por causa da proximidade das finais do turno.





A partir de hoje irei publicar uma série exclusiva sobre o sócio-torcedor. Serão três posts analisando os números de público do Engenhão e a relação gratuidade x ingresso cheio x meia-entrada. No final, uma crítica ao atual sócio-torcedor e sugestões de como melhorá-lo. 
Antes de prosseguir, não posso deixar de incluir Fernando Lôpo e Vitor Alves nos créditos de várias das idéias que irão compor essa série. Os dois são mais novos do que eu, mas extremamente talentosos para lidar com esse complicado mundo dos bastidores do futebol. Destaco a idade deles pois tem muita gente que vê isso como uma desvantagem. Mas essa não é uma discussão para esse espaço.

Parte I - Introdução

Nos últimos anos virou lugar comum dizer que o "sócio-torcedor" é a solução para os problemas financeiros do Botafogo. Em um passe de mágica, a torcida faria filas para doar o seu dinheiro ao clube, fazendo a contagem de sócio-torcedores chegar à casa das dezenas de milhares rapidamente.

Lamento informar, mas não é assim que funciona. Em primeiro lugar, a torcida não quer dar dinheiro ao clube e vê-lo desaparecer em alguma manobra contábil. Aliás, se ela quisesse apenas contribuir sem qualquer contrapartida, os torcedores já estariam depositando dinheiro em alguma conta corrente do clube há muito tempo.




Por mais que um clube envolva paixão, o torcedor é um consumidor. OK, existe uma minoria de loucos que entregará o seu dinheiro sorrindo em troca de qualquer coisa que o clube oferecer (é, caro leitor, você não está sozinho nessa), mas, em geral, os torcedores comuns não estão dispostos a isso. Caso contrário, o nosso programa de sócio-torcedor não teria apenas seis mil cadastrados contra os cem mil do Internacional.

E não adianta falar apenas em tempo de programa. No nosso melhor momento, tivemos 18 mil cadastrados (agosto de 2007). Se a questão fosse apenas ajuda ao clube (ou obter alguma vantagem), seria natural que o número de cadastrados superasse o público pagante médio, o que não aconteceu em nenhum momento durante esses anos.

Sendo assim, é importante tentar pensar o sócio-torcedor de forma um pouco mais abrangente. De início, é um erro estipular um valor conforme as próprias necessidades. Peguemos o meu caso. Se eu vou a todos os jogos, é natural que eu tenha mais dinheiro disponível (ou esteja disposto a gastar mais) para o Botafogo do que a maioria da torcida. Com isso, não posso utilizar o meu gasto como um padrão para o sócio-torcedor.

Um raciocínio mais eficaz seria considerar os setores mais baratos (Norte e Sul) e analisarmos a relação entre público e renda que ocorre lá. Sem entrar em estatísticas, baseados apenas na observação, podemos criar algumas regras:

- toda vez que o setor Norte custa o mesmo que a Leste Inferior ou Superior, fica vazio.

- toda vez que o setor Norte custa menos que a Leste Inferior ou Superior, o setor enche.

Claro que eu estou levando em conta jogos com algum apelo, já que não podemos considerar os jogos do Caixão. Também não podemos levar em conta jogos de lotação do estádio, já que nestes as pessoas pagariam um preço maior pelo ingresso (a velha e boa lei da oferta e da procura).

E os jogos onde o setor teve um bom público custavam dez reais. Esse, então, não é um bom valor para estabelecermos como base para o nosso plano?

Tendo o valor base, vamos para o segundo ponto: o que oferecer?

Como a propaganda do novo sócio-torcedor destaca, existem diversos tipos de torcedores. Mas o programa falha em misturá-los. E faz isso da pior maneira possível, já que trata os torcedores de fora do estado e os de menor poder aquisitivo como se fossem um só. Sendo assim, os dois maiores grupos de torcedores estão juntos no programa "Botafogo sem Fronteiras".

Com isso, os dois grupos distintos são tratados como se eles tivessem as mesmas necessidades, diminuindo consideravelmente a capacidade de trabalhar nas suas individualidades, tendo que se ater às características comuns. Ou você acha que o associado do Acre quer saber de desconto de 50% na compra do ingresso?

Por isso, o melhor a se fazer é oferecer ao máximo vantagens que não demandem custos e, a partir daí, agregar outros benefícios que devem ser escolhidos pelos torcedores.

Mas antes de partirmos para a análise do atual plano de sócio-torcedor e sugerir um novo formato, precisamos analisar atentamente o público do Engenhão e entendermos que freqüenta o estádio.


Amanhã a segunda parte: "Quem é o público do Engenhão?"