Publicado originalmente no blog do Movimento Carlito Rocha no dia 23 de março de 2010

Na tarde de ontem, eu estive presente na reunião entre os clubes, a Federação, a BWA e o Ministério Público Estadual (MP) para definir novos termos na venda de ingressos e tratamento do público nos jogos do estadual onde a BWA confecciona os ingressos.

O convite partiu do promotor Rodrigo Terra, a partir da denúncia que eu e o Fernando Lôpo fizemos ao MP sobre o problema do borderô no jogo Botafogo e Tigres, em São Januário. A partir dessa denúncia, nós entregamos ao promotor uma listagem com uma série de problemas encontrados nas bilheterias e estádios do Rio de Janeiro. O promotor gostou do material e nos convidou para participar da reunião como "representantes dos torcedores".

A reunião teve a presença dos diretores jurídicos do Flamengo, Vasco, Fluminense (que mandou dois representantes) e da Ferj. Além disso, estavam presentes um representante da BWA, o promotor Rodrigo Terra, o repórter do Lance!, Rodrigo Ciantar, e eu.

O objetivo da reunião era a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). O documento ganhou importância pois, após os diversos problemas encontrados pela torcida no clássico entre Vasco e Flamengo no Maracanã, a Suderj se pronunciou e condicionou o aluguel do estádio a realização de mudanças para que o caos instalado na entrada daquele jogo não ocorresse mais. Enfim, a sujeira não podia respingar na Suderj.

Sendo assim, lá foram os representantes dos clubes, da Ferj e da BWA ao prédio do Ministério Público tentar sair com o TAC pronto a tempo de realizarem o clássico entre o Vasco e o Fluminense no Maracanã. E essa era realmente a intenção de todos eles ao ingressarem na sala de reuniões.

Com todos já acomodados após o atraso dos representantes do Fluminense e da BWA, o representante da Ferj pediu a palavra. Para surpresa minha e do promotor, ele apresentou um documento assinado pelos representantes dos clubes, da Ferj e da BWA ainda na manhã de ontem. O documento listava uma série de mudanças para melhorar a vida do torcedor do estádio.

Com o papel em mãos, o promotor Rodrigo Terra passou à leitura das três páginas do documento que iria acabar com todos os problemas dos torcedores cariocas.

Acho que não cabe aqui listar todos os itens, mas apenas citar os mais importantes, como, por exemplo, o compromisso da BWA em abrir todas as bilheterias do Maracanã para vendas de ingresso.

A cada item do documento, o representante da BWA interrompia e acrescentava um "isso já está sendo feito". Entretanto, quando o promotor falou sobre a instalação de catracas para cada setor dentro do Maracanã o representante também falou que isso já existia e eu fui obrigado a discordar. Falei dos jogos finais do primeiro turno, onde não havia catracas. O representante da BWA argumentou que, devido ao alto número de torcedores, as pessoas que estavam conferindo os ingressos tiveram que sair. Depois ele falou que a prática foi adotada em toda a Taça Rio. Novamente discordei e citei o jogo de duas semanas atrás entre Botafogo e Fluminense. A réplica foi que o próximo jogo já terá as catracas em cada setor.

E assim a reunião prosseguiu. O promotor falando, o representante da BWA argumentando e se desculpando e os representantes do Vasco, do Fluminense e da Ferj (o do Flamengo não abriu a boca) fazendo um raro comentário aqui e ali, mas nunca argumentando ou discordando.

Em determinado momento, após mais uma explicação do representante da BWA sobre um determinado item do documento, o promotor Rodrigo Terra se exaltou. Argumentou qual era a necessidade de todos assinarem um documento em que as partes se comprometem a efetuarem mudanças que já estão implementadas.

O promotor seguiu adiante e falou dos problemas do torcedor comum, que enfrenta filas e sofre para ver o seu clube do coração. E se o futebol do Rio fosse depender daquele documento, nada iria mudar para todos que têm fugir do trabalho e encarar longas filas na esperança de um ingresso.

A reunião teve outros itens, inclusive cobranças por parte do promotor em relação à setorização, internet e responsabilidades de cada um dos envolvidos nos jogos. Mas a impressão que se tinha era que ninguém estava ali para discutir nada. Queriam, na verdade, uma chancela do Ministério Público para referendar todo o caos que existe no futebol do Rio.

Felizmente, o promotor Rodrigo Terra levantou da mesa com as suas sugestões e deixou os representantes sem qualquer apoio do MP em mais uma maquiagem imposta pelos dirigentes em cima dos graves problemas que o nosso futebol passa.

Na verdade, nenhum dos representantes que estava sentado naquela mesa tem a menor noção do que passa um torcedor em um estádio. Talvez, do conforto do seu camarote ou do seu pay-per-view, eles acreditem que aqueles malucos que se aventuram em ir a um estádio devem aturar qualquer absurdo cometido por dirigentes. Tudo, como gostam de dizer, em nome da paixão. Porém, há pessoas como o promotor Rodrigo Terra dispostos a levantar da mesa e dizer para esses dirigentes que não é assim que se faz.

Mas, no final, a pergunta que o representante do Vasco fez para mim logo no início da reunião é a síntese de tudo: "mas eu ainda não entendi o que você está fazendo aqui".

À noite, a Suderj informou que aceitou o documento assinado pelos clubes, pela Ferj e pela BWA e que o Maracanã voltará a abrigar jogos do estadual.

Alguém duvidou?