"I sit by and watch the river flow
I sit by and watch the traffic go"
("Dreaming" - Blondie)


Existe um lado extremamente ruim em entrar para a política de um clube: você conhece as pessoas que fazem o dia-a-dia do clube. Sabe das suas fraquezas, do que elas gostam, enfim, elas se tornam serem humanos reais - e como o clube é objeto de nossa paixão, isso é algo preocupante.

Na década de 90, eu dormia ouvindo o rádio debaixo do travesseiro. Sintonizado na Tupi, vibrava em silêncio com contratações como a do Túlio Maravilha. Era outro mundo. O Botafogo parecia tão distante, as pessoas que tocavam o clube pareciam tão especiais, que eu achava que eram mágicas.

Afinal, dirigir um clube, fazer contratações, pagar salários astronômicos... Tudo isso soava distante demais para mim. Era como se os dirigentes tivessem nascido para aquela função. E aos humildes habitantes das arquibancadas restariam apenas os aplausos e as vaias.


Mas o tempo passou. O simples ato de folhear o Balancete do ano de 95 me despertou daquele mundo mágico, onde tudo era perfeito. Afinal, o que estava ali não combinava com o que eu lia em todos os jornais. Passado algum tempo, o Botafogo estava em uma CPI, com os seus dirigentes ingressando diversas vezes nos tribunais para impedir as investigações.

Alguma coisa estava errada.

Com isso, eu passei a participar da vida política do clube. Os anos foram passando, o meu grupo (MCR) lançou o Bebeto à Presidência, meu tio virou o vice-geral e eu fui conhecendo mais e mais do clube.

E ia cada vez mais preenchendo as lacunas que faltavam sobre alguns assuntos polêmicos.

Assim, a minha visão sobre o clube deixava de ser aquela romântica. Não que os dirigentes (que eu conheci) fossem desonestos, não é isso. Mas o clube não é a mesma coisa quando você senta-se à mesa com o presidente do seu clube e ele fala: "mas, Thiago...".

É o distanciamento que nos permite sonhar. Um garoto de hoje que baixe um MP3 da sua banda favorita não será afetado da mesma maneira que eu fui: voltando com o "Sandinista!" do Clash correndo na chuva, doido para ouvir aquelas 36 músicas estranhas. Há um componente, digamos, mágico, toda aquela falta de informação sobre quaisquer das músicas ajuda a criar um clima todo especial que afeta a nosso julgamento.

E é isso que acontece com o Suns, meu time na NBA. O meu relacionamento com ele é o mesmo de 1993, quando comecei a torcer pelo time de Arizona graças ao Charles Barkley. Estou completamente distante, não posso nem ao menos reclamar dos jogadores. Não sei nada sobre o General Manager (seria o nosso vice de futebol) Steve Kerr, além do que eu leio nos jornais.

Já com o Botafogo, é o contrário. Eu conheço a maioria dos membros da diretoria. Posso, inclusive, apontar amigos nela e no Conselho Deliberativo. Além disso, sei exatamente como são as finanças, conheço os jogadores e outras notícias que circulam em General Severiano. O meu relacionamento com o Botafogo mudou muito desde que eu era pequeno.

Não falo isso para me gabar, peço desculpas se a impressão passada é essa. Mas, como alguns de vocês devem saber, sou sócio do Botafogo já há algum tempo e faço política no clube há mais tempo ainda. Com isso, você acaba conhecendo as pessoas (para o bem e para o mal), ainda mais em clube com um quadro social tão limitado como o Botafogo.

Pergunto, então: há espaço para o sonho assim? Não, não há. O que não quer dizer, claro, que eu tenha desistido do clube. Só que eu acho que, com o Botafogo, é necessário mais ação, menos papo. Os poucos sócios do clube não podem se contentar em assistir e torcer. Não dá.

Com isso, o Phoenix Suns tem o papel que o Botafogo tinha quando eu era bem mais novo: o de apenas sonhar com um clube. Vê-lo iniciar um campeonato e torcer pelo título. Somente isso.

Às vezes, eu gostaria que fosse o contrário. Mas não dá. Sendo assim, espero que esse blog esteja ajudando as pessoas a conhecerem um pouco mais o Botafogo e pensando no seu futuro - é essa a minha intenção.

Para terminar, no Engenhão e no Maracanã, eu, assim como todos os botafoguenses, somos iguais: viramos os garotos de sempre torcendo pelo seu time.

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Escrever sobre o Botafogo (19/05/2010)

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